Não existe uma dieta única para o lipedema. Estratégias alimentares individualizadas podem ajudar a reduzir inflamação, melhorar o metabolismo e controlar sintomas
Quando uma mulher recebe o diagnóstico de lipedema, uma das primeiras dúvidas costuma ser sobre alimentação: o que posso comer? Preciso cortar carboidratos? Glúten e lactose devem ser eliminados? Existe uma dieta específica para acabar com a gordura do lipedema?
A resposta é mais complexa do que simplesmente seguir uma lista de alimentos permitidos e proibidos.
Segundo a fisioterapeuta e proprietária da Liv Lipedema, Andressa Bresolin, a alimentação não é a causa do lipedema, mas é um dos pilares importantes no cuidado da condição. O lipedema envolve um processo inflamatório crônico de baixo grau, além de alterações no tecido adiposo, fibrose e circulação. Por isso, o cuidado precisa considerar diferentes aspectos da saúde.
Existe uma dieta específica para o lipedema?
Não existe uma “dieta do lipedema”. De acordo com Andressa, estratégias como uma alimentação com perfil anti-inflamatório podem ser utilizadas, mas não existe uma única abordagem que funcione da mesma maneira para todas as mulheres.
Entre as estratégias estudadas e utilizadas estão padrões alimentares como a dieta mediterrânea e a cetogênica. Porém, a escolha precisa considerar a individualidade de cada paciente, sua rotina, suas necessidades e sua capacidade de manter a alimentação no longo prazo.
“O mais importante é que cada mulher tenha uma dieta individualizada para que ela consiga manter”, explica Andressa.
A nutricionista Caroline Dalcin, que atende na Liv, reforça que o objetivo não deve ser pensar apenas em emagrecimento. A estratégia nutricional deve considerar também redução da inflamação, melhora metabólica e controle dos sintomas.
O que priorizar na alimentação?
Para Caroline, a base deve ser uma alimentação predominantemente anti-inflamatória e composta por alimentos de verdade.
Entre os alimentos que podem fazer parte da rotina estão:
- proteínas, como ovos, peixes, carnes e aves, de acordo com a individualidade
- vegetais variados
- alimentos ricos em fibras
- raízes
- frutas inteiras
- azeite de oliva
- abacate
- castanhas e sementes
A qualidade dos carboidratos também merece atenção. Isso não significa eliminar esse grupo alimentar, mas observar o contexto em que ele aparece e a qualidade das escolhas.
A nutricionista chama atenção especialmente para o consumo frequente de açúcar, farinhas refinadas, bebidas açucaradas e produtos ultraprocessados, além do hábito de passar o dia beliscando.
É preciso cortar carboidratos, glúten ou lactose?
Não necessariamente. Segundo Caroline, mulheres com lipedema não precisam retirar automaticamente glúten, lactose ou todos os carboidratos da alimentação.
A necessidade de alguma restrição depende de características individuais. Entre os pontos que podem ser avaliados estão a presença de intolerâncias, doença celíaca, sintomas gastrointestinais, resistência à insulina, resposta aos carboidratos e o consumo de ultraprocessados.
Por isso, retirar grupos alimentares por conta própria pode não ser a melhor estratégia. A recomendação é investigar o que realmente faz sentido para cada pessoa, em vez de seguir dietas restritivas baseadas em regras gerais.
Dietas muito restritivas podem atrapalhar?
Podem. Caroline relata que muitas mulheres chegam ao acompanhamento nutricional depois de anos alternando diferentes dietas: cortam carboidratos, depois lactose, depois glúten, passam por períodos de restrição, perdem peso e posteriormente recuperam.
Esse ciclo pode fazer com que a paciente associe suas dificuldades à falta de disciplina.
Mas uma alimentação extremamente restritiva pode reduzir a variedade de alimentos e dificultar o consumo adequado de proteínas, fibras e micronutrientes. Além disso, quando uma estratégia não é sustentável, fica mais difícil mantê-la na rotina.
Para Andressa, o tratamento do lipedema não deve se transformar em mais uma luta contra o próprio corpo.
Por que emagrecer não elimina necessariamente a gordura do lipedema?
Essa é uma das dúvidas mais comuns. Uma mulher pode perder peso e observar mudanças na composição corporal sem que a desproporção característica do lipedema desapareça.
Isso acontece porque, segundo Andressa, o tecido adiposo afetado pelo lipedema apresenta características diferentes da gordura corporal comum. Há alterações estruturais e um componente fibrótico associado ao tecido.
Assim, quando ocorre emagrecimento, é possível reduzir a gordura corporal de maneira geral, mas a gordura característica do lipedema pode permanecer.
Por isso, o fato de determinada região não responder ao emagrecimento da mesma maneira que outras partes do corpo não significa necessariamente que a paciente esteja se alimentando errado ou que não esteja se esforçando o suficiente.
Quem tem lipedema precisa estar acima do peso?
Não. O lipedema não é sinônimo de obesidade e pode estar presente também em mulheres que estão dentro do peso corporal considerado adequado, são fisicamente ativas ou apresentam baixo percentual de gordura.
Segundo Andressa, o que caracteriza o lipedema não é simplesmente a quantidade de gordura corporal, mas principalmente a distribuição e as características das células de gordura.
Essa informação é importante porque ajuda a combater a ideia de que toda mulher com lipedema precisa necessariamente emagrecer como principal objetivo do tratamento.
Alimentação faz parte de um cuidado multidisciplinar
A alimentação pode contribuir para o controle da inflamação, aspectos metabólicos, peso, dor e qualidade de vida, mas não atua de maneira isolada.
Na abordagem da Liv, a estratégia alimentar pode ser associada a outras formas de cuidado, como exercícios físicos e terapia de compressão. A proposta é que diferentes frentes do tratamento atuem de forma integrada.
“Tratar de dentro para fora” é justamente a ideia defendida por Andressa: fazer com que a alimentação e as demais estratégias de cuidado se complementem e potencializem os resultados.
Uma mudança simples para começar
Se fosse necessário escolher uma mudança prática para a rotina, Caroline destaca duas.
A primeira é estruturar as refeições a partir de proteína, vegetais e gordura boa, deixando o carboidrato entrar de maneira estratégica, de acordo com as necessidades individuais. A segunda, é evitar o hábito de beliscar durante todo o dia.
Refeições completas, com quantidade adequada de proteínas e fibras, podem contribuir para a saciedade e reduzir a sucessão de pequenos estímulos glicêmicos ao longo do dia.
Mais do que encontrar uma dieta perfeita, o objetivo é construir uma estratégia alimentar individualizada, possível de manter e alinhada às necessidades de cada mulher.
O lipedema não se resume ao peso
O cuidado com o lipedema vai muito além da balança. A alimentação é uma das ferramentas que podem fazer parte desse processo, mas o tratamento precisa considerar a condição de maneira ampla. Se existe suspeita de lipedema, a orientação é buscar avaliação profissional para entender os sinais, sintomas e necessidades individuais.